segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Estreias Tardias, por José Augusto Jensen


Os famosos musicais da Metro no cine Ópera.


 Charlton Heston em Os Dez Mandamentos.

Publicado originalmente no site da Revista Ideias, em 4 de março de 2016.

Estreias tardias.
Por José Augusto Jensen.

Para os de hoje é inconcebível, mas filmes demoravam dois anos ou mais para chegar às telas curitibanas. E eram exibidos em uma sala, raramente duas, utilizando a mesma cópia com diferenças de horários. Os filmes eram negociados em pacotes, quase um ano depois de produzidos e com exclusividade para uma empresa exibidora. Isto gerava um tipo de filme e um tipo de público característico para cada cinema, que era a do estúdio em contrato com a sala. Por exemplo, o leão da Metro-Goldwin-Mayer só rugia na tela do cine Ópera, e todos os musicais com Judy Garland, Gene Kelly, Lena Horne, Fred Astaire, Esther Williams, só passavam nela.

Em uma notícia de jornal, o showman Henrique Oliva, que administrava os cines Luz, Palácio e Broadway, anunciava a contratação da “Produção 1946” da Columbia Pictures. Os estúdios americanos faziam o lote daquele ano para o Brasil e impunham determinada quantidade de filmes para garantir o espaço nas telas, pois tinham mais produções que cinemas para exibi-los. Além disso, o número de cópias era, de aproximadamente, quatro para todo o país, e eram distribuídas das grandes cidades para as menores. Curitiba estava geralmente em sexto lugar. Antes Rio, São Paulo, Porto Alegre, Recife, Belo Horizonte, o caminho do filme conforme a renda. E dependendo do sucesso, isto é, a permanência em cartaz nas cidades, demorava ainda mais. Às vezes a cópia voltava aos grandes centros para circuitos de segunda linha em reprises, ou cinemas de bairro, em estado lastimável, riscadas, com emendas, até faltando pedaços. Os trailers, cartazes e fotos para publicidade eram distribuídos com bastante antecedência. Também as críticas ou artigos nos jornais, revistas ou a música tocando nas rádios, gerava grandes expectativas. Antes da exibição do trailer, colavam fotogramas com indicações, de “a seguir neste cinema”, “Breve” ou o dia da semana que o filme estrearia. Infelizmente, esta prática orientativa abandonada e o número abusivo de trailers em algumas salas na atualidade, criam a dúvida se é mais um trailer ou comercial.

Quando tinha o “breve”, não se sabia para quando, pois poderia demorar semanas. Isto quando não aconteciam problemas nas negociações de preços, tempo de exibição, porcentagens da bilheteria, o que atrasava ainda mais a estreia.  O Oliva, que tinha exclusividade com a Paramount, não aceitou as condições impostas para exibir “Os dez Mandamentos”( The Ten Commandments), com Charlton Heston, Yul Brynner, produção e direção de Cecil B. de Mille, produção de 1956, com 231 minutos, no recém-inaugurado Cine Lido. Entre elas, 70% da renda e ele só aceitava pagar 50%, já que eram só duas sessões por dia. Só foi exibido em Curitiba no final de 1960, o segundo filme exibido no cine São João, Rua Des. Westphalen. Ficou dez semanas em cartaz.  Este cinema foi inaugurado em 28 de setembro com “A volta ao mundo em oitenta dias”, (Around the world in 80 days) produção de Michael Todd, 1956, direção de Robert Motley, com David Niven, Cantinflas, e pontas de vários atores famosos na época. Na plateia de baixo uma novidade, ingressos com venda antecipada e cadeiras numeradas. Passou a lançar muitas super-produções. Interessante também é que os chamados longa-metragens eram projetados com intervalo, onde se ia a ampla sala de espera para circular e comprar algo na bombonière. Estes filmes vinham com película sem imagem, contendo a gravação para a música a ser tocada na abertura, entre ato e saída do público, que se ouvia também na sala de espera principalmente para marcar o reinício da sessão, após o intervalo. Hoje podemos ouvir estas gravações em alguns DVDs destes filmes.

Eram frequentes as avant-premières, estreias beneficentes para toda sorte de entidades, como asilos e creches, com grandes filmes. Havia uma senhora, Dona Helena Van Der Berger, simpática e dinâmica esposa do cônsul da Holanda no Paraná, que organizava estas premières com gala. Era ótimo também para as distribuidoras e cinemas, pois divulgavam os filmes com grande publicidade.

Na calçada à entrada do cinema a banda de música da polícia militar do Estado do Paraná fazia um cordão de isolamento e o povo via a chegada das personalidades locais ao cinema.

Lembro de tudo isso em 1961, na avant-première de “Ben-Hur”, com Charlton Heston, Stephen Boyd, dirigido por Willian Wyler, no São João. Tornou-se o recordista do “Oscar” de 1959 com 11 estatuetas, sendo equiparado apenas em 1997 com “Titanic”, com Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, direção James Cameron.

Mas aconteceu justamente no dia 31 de março de 1964, a première de “Minha doce gueixa” (My Geisha), com Shirley Maclaine, Yves Montand, direção Jack Cardif, produção de 1962, no cine Lido. Tudo preparado com bastante antecedência, com todos os convites já vendidos. As notícias da tal revolução começaram a circular naquele dia pouco antes das 20 horas, início programado para a sessão festiva. Em meio ao reboliço causado pelo assunto, uma senhora chega à gerência do cinema e brada: “É um absurdo, com a nossa pátria em perigo, promover uma festa!” A sessão não foi suspensa, pois a promotora, dona Helena seria criticada, mas o foi duramente por não cancelar. Como estrangeira, ficou constrangida e parou com as promoções. Estranhamente as tais senhoras preocupadas com a pátria, foram vistas na sala de projeção até o final do filme.

Mas um filme muito aguardado em Curitiba, já que estava fazendo furor em outras cidades brasileiras, foi “O exorcista” (The exorcist), com Ellen Burstin, Max von Sidow, Linda Blair, direção de Willian Friedkin, produção Warner de 1973. Um recorde de público na estreia, em um único cinema, o cine Vitória, e acho que ninguém conseguirá batê-lo, pois agora as salas são pequenas: 11.112 espectadores no primeiro dia. A procura por ingressos era tanta que a empresa resolveu fazer sessões das 10 da manhã até a meia-noite, num total de oito. Nos dias seguintes, em horários normais, 2, 4, 6, 8 e 10 horas, chegou a 8 mil espectadores/dia na primeira semana.

Fatos inimagináveis para os dias de hoje com o público disperso em shoppings.

Texto e imagens reproduzidos do site: revistaideias.com.br

Aviso comum na maioria das Cabines de Projeção


As distribuidoras cinematográficas, por José Augusto Jensen



 Boletim emitido pela revisora da filial MGM em Curitiba.

Logo da Rank.


Publicado originalmente no site da Revista Ideias, em 5 de julho de 2016.

As distribuidoras cinematográficas.
Por José Augusto Jensen.

Perto da Cinelândia curitibana, no início da rua Des. Ermelino de Leão, principalmente, situavam-se quase todas as filiais dos grandes estúdios que faziam a distribuição de seus filmes por estas bandas. Metro-Goldwin-Mayer, Columbia, Fox, Paramount, a Art Filmes, que aglomerava produções europeias, principalmente francesas, alemãs e italianas, a Rank inglesa, e outras. Atendiam todo o Paraná e Santa Catarina. Eram frequentadas principalmente pelos exibidores do interior que, no início da semana, vinham pagar, marcar os filmes para seus cinemas, devolver e pegar cartazes, trailers. Movimentavam os cafés, hotéis, restaurantes, lojas de materiais eletroeletrônicos, com o que mantinham seus cinemas, e encomendas para suas cidades de origem. Assistiam a alguns filmes para, se gostassem, e verificando a renda na capital, posterior contratação. Gerava grande disputa para datas e primazia em filmes de grande sucesso entre eles.

Eram grandes espaços onde havia um gerente, a tesouraria, o arquivo de filmes, a seção de remessas (recebia e enviava as latas contendo filmes), a de cartazes e fotos, os fiscais para os filmes com porcentagem na bilheteria (se não, eram negociados a um preço fixo), as revisoras e o programador. Este era a alma da distribuidora. Ele manuseava um “livrão”, onde, em cada página, constava o nome de um filme, sua entrada e a saída, o período de permanência na filial. Recebia o exibidor, ou sua carta, solicitando a marcação de tal filme, negociando as datas ou a semana, anotando na página correspondente. Eram poucas cópias para o Brasil e elas tinham curta permanência em cada distribuidora. O exibidor tinha que ter disponíveis, antes da data acertada, os cartazes, as fotos, o trailer, material para publicidade no seu cinema. Só pegava o material se tivesse acertada a data três semanas à frente, pois também eram poucos e tinha que devolver em bom estado, ou pagava. Nesta relação exibidor-distribuidora, existia muita tensão, dependendo da força ou importância de cada um, negociações duras, principalmente para os pequenos com seus longínquos cinemas, ou os chamados poeiras e “segunda linha” de bairros da capital. No balcão da distribuidora, atendia também qualquer pessoa interessada em alugar alguma produção para clubes, associações, eventos, festas e famílias que possuíam projetores em casa.

As revisoras eram principalmente mulheres, que revisavam e consertavam (faziam emendas) nas cópias e emitiam um boletim sobre o estado destas, a metragem de cada parte, que era colocado na primeira das latas do filme, para a leitura do operador cinematográfico. Se acontecesse algum problema na exibição, era confrontado com o boletim e, conforme o caso, também era cobrado o pedaço estragado do último exibidor. As emendas tinham a marca da distribuidora, não notada na projeção, pois muitas pessoas colecionavam quadros de filmes ou roubavam cenas inteiras. Mas depois de tanto passar, algumas cópias ficavam em péssimo estado e as revisoras, com muito trabalho, não ficavam procurando tal identificação. Todavia, se o filme arrebentasse na exibição, o próprio operador na cabine do cinema emendava, se houvesse mais sessões pela frente.

O fiscal da distribuidora ficava na porta do cinema com um contador na mão, e depois o resultado era confrontado com o relatório, o chamado borderô, das entradas vendidas no cinema a cada sessão.

As distribuidoras disponibilizavam folhetos com a sinopse de filmes e frases publicitárias para divulgação na mídia, os press-sheets, chamados aqui de “prechites”.

Um exibidor de Guarapuava estava em Curitiba e assistiu a “Capitão Blood”, (Captain Bloo), com Errol Flynn, Olivia de Havilland, direção de Michael Curtis, Warner, produção de 1935, grande sucesso de público. Adorou o filme e fez o maior empenho com o programador da distribuidora, pagou caro, mas contratou para seu cinema, antes de algumas cidades bem maiores. Chegou lá e fez tremenda publicidade. Chegou a cópia no trem, foram conferir e faltava a primeira lata (parte de dez minutos nesta época). Ficou desesperado, pensou “se não exibir o filme, me quebram o cinema; se exibir deste jeito, quebram também.” Telefone não havia; carta, telegrama foi transmitido para a distribuidora, mas não dava mais tempo.

Naquela noite, abriu a bilheteria, o cinema lotou, subiu ao palco e contou a história quase chorando. A plateia começou a ficar agitada, barulho. E continuou: mas é só dez minutos de filme, eu vou contar como começa, tenham paciência que quando vier a parte eu passo, darei um cupom para cada um. Terminou o relato do que faltava e fez sinal para o operador iniciar. Foi tudo bem, o filme tinha dezoito partes, nem apareceram para assistir ao início no outro dia.

Também havia exibições clandestinas, a pirataria da época. Convém lembrar que os filmes eram transportados, de norte a sul do país, fundamentalmente de trem. Nas latas, junto ao destinatário, sempre um aviso: seguir no primeiro trem. Matreiramente, um exibidor da cidade de Tangará (SC), última estação antes da fronteira com o Rio Grande do Sul, pactuou com o chefe da composição, para interceptar os filmes que estavam seguindo para Porto Alegre. Deixava num dia e pegava no outro. Exibia clandestinamente antes da capital gaúcha.

Às vezes deixava cinco filmes, e eram exibidos a noite toda: começava às 20 horas e ia até as 5 da manhã. Sem reprise, inverno rigoroso, cinema sempre cheio. Na manhã seguinte, tudo no trem novamente. Até que um dia, não havia filmes no trem, ficou quieto, não podia falar nada para ninguém na estação. Segundo dia, nada; terceiro dia, nada também. Foi ao chefe da composição e perguntou pelo seu comparsa. – Foi preso, por contrabando. Ficou quieto, teve que voltar às distribuidoras, exibir cópias surradas e com muito atraso, assim era a vida dos pequenos exibidores em pequenas cidades por este Brasil de então. Um amigo meu, nascido em Morretes, brinca, contando que quando passou o filme “Os dez Mandamentos” do DeMille, nesta cidade, ele deve ter visto só uns sete minutos, tal o estado da cópia!

Quando os cinemas do interior foram cerrando suas portas, também as distribuidoras fecharam, pois os grandes circuitos negociavam diretamente com as matrizes, no Rio de Janeiro ou em São Paulo, que centralizaram a distribuição para o país.

Texto e imagens reproduzidos do site: revistaideias.com.br